Se eu morresse amanhã
Passei o dia sozinha.
Meia sozinha, sempre com o meu cão - o fiel escudeiro "Broa", que fica debaixo da minha cama, horas a fio,sem ladrar, de vez em quando cai no sono e ouve-se um ressonar.
Se for à casa de banho vai atrás de mim.Se comer qualquer coisa, vai querer dividir. Se deixar sobe na minha cama.
Sempre com o meu telemóvel, que conta com chamadas certas da minha mãe,e mensagens incertas dos amigos. O meu filho ás vezes liga. Mas é obrigado pelo pai. Detesta telefone, aguenta uns segundos e não sabe ouvir,tem 7 anos, ainda vai a tempo de aprender.
Além do telefone, tive também a companhia do meu computador novo. Que dá acesso a pessoas com as quais nunca teria oportunidade de interagir.Entrevistas.Como eu gosto de ouvir entrevistas.
É o prémio de consolo que Deus me deu, por não ter à minha volta tanta gente interessante quanto eu gostaria.
Se eu pudesse, passava os dias a conversar e a ouvir.
Ás vezes perguntavam-me naquelas entrevistas parvas das empresas : " Onde é que gostava de estar daqui a 10 anos?"
E eu, não sabia.
Agora eu sei que gostaria de estar sempre à conversa. E podia ser já.Não é preciso esperar 10 anos.
Se morresse amanhã, teria pena de não ter conversado mais.De não ter ouvido mais. Teria pena de não acompanhar o crescimento do meu filho.
Teria pena de não ter feito teatro.
De não ter sido magra e loira no último ano.
Teria pena de não ter deixado um viúvo oficial tristíssimo, que demoraria uma vida para se recompôr. E outros apaixonados secretos, que chorariam sozinhos, e antes de dormir olhariam para a minha fotografia, loira e magra, desolados.
Teria pena de não ter feito alguma coisa pelas crianças nos orfanatos.Menos do que não ter deixado viúvos, mas ainda assim bastante pena.
Teria pena de não ter conhecido os meus sobrinhos e de não ter tido uma filha com o viúvo inconsolável. Uma filha adoptada.
Teria pena de não ter conhecido Nova York, os Açores.E de nunca ter oferecido aos meus amigos para umas férias na praia no Algarve,com cozinheira,empregadas e dispensa cheia de coisas boas, para voltarmos a ser adolescentes por uns dias.
Teria pena de não ter oferecido um barco ao meu pai, e uma casa no Algarve à minha mãe.
Afinal teria pena de imensas coisas, por isso espero não morrer já amanhã.
Se morrer, fica aqui no blog a minha última crónica, a minha despedida irónica.
Se não morrer, um motivo, para os que leram, gozarem comigo no próximo jantar.
Meia sozinha, sempre com o meu cão - o fiel escudeiro "Broa", que fica debaixo da minha cama, horas a fio,sem ladrar, de vez em quando cai no sono e ouve-se um ressonar.
Se for à casa de banho vai atrás de mim.Se comer qualquer coisa, vai querer dividir. Se deixar sobe na minha cama.
Sempre com o meu telemóvel, que conta com chamadas certas da minha mãe,e mensagens incertas dos amigos. O meu filho ás vezes liga. Mas é obrigado pelo pai. Detesta telefone, aguenta uns segundos e não sabe ouvir,tem 7 anos, ainda vai a tempo de aprender.
Além do telefone, tive também a companhia do meu computador novo. Que dá acesso a pessoas com as quais nunca teria oportunidade de interagir.Entrevistas.Como eu gosto de ouvir entrevistas.
É o prémio de consolo que Deus me deu, por não ter à minha volta tanta gente interessante quanto eu gostaria.
Se eu pudesse, passava os dias a conversar e a ouvir.
Ás vezes perguntavam-me naquelas entrevistas parvas das empresas : " Onde é que gostava de estar daqui a 10 anos?"
E eu, não sabia.
Agora eu sei que gostaria de estar sempre à conversa. E podia ser já.Não é preciso esperar 10 anos.
Se morresse amanhã, teria pena de não ter conversado mais.De não ter ouvido mais. Teria pena de não acompanhar o crescimento do meu filho.
Teria pena de não ter feito teatro.
De não ter sido magra e loira no último ano.
Teria pena de não ter deixado um viúvo oficial tristíssimo, que demoraria uma vida para se recompôr. E outros apaixonados secretos, que chorariam sozinhos, e antes de dormir olhariam para a minha fotografia, loira e magra, desolados.
Teria pena de não ter feito alguma coisa pelas crianças nos orfanatos.Menos do que não ter deixado viúvos, mas ainda assim bastante pena.
Teria pena de não ter conhecido os meus sobrinhos e de não ter tido uma filha com o viúvo inconsolável. Uma filha adoptada.
Teria pena de não ter conhecido Nova York, os Açores.E de nunca ter oferecido aos meus amigos para umas férias na praia no Algarve,com cozinheira,empregadas e dispensa cheia de coisas boas, para voltarmos a ser adolescentes por uns dias.
Teria pena de não ter oferecido um barco ao meu pai, e uma casa no Algarve à minha mãe.
Afinal teria pena de imensas coisas, por isso espero não morrer já amanhã.
Se morrer, fica aqui no blog a minha última crónica, a minha despedida irónica.
Se não morrer, um motivo, para os que leram, gozarem comigo no próximo jantar.
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